quinta-feira, 30 de abril de 2009

Edouard Bard

Pergunta - Para contrariar o aquecimento global, os climatólogos falam agora de «arrefecer» artificialmente a Terra. Isto é sério ?Edouard Bard - Sim, infelizmente. Diversas hipóteses estão a ser encaradas. Algumas são muito prospectivas, como o envio de um enorme espelho a meio caminho entre a Terra e o Sol. Tal faria diminuir a luz da terra. Outras são menos futuristas, como as experiências de fertilização dos oceanos de partículas de ferro: este elemento favoreceria a fotossíntese – logo, a absorção do carbono – pelo filoplancton. Diminuindo assim a concentração do gás carbónico responsável pelo «efeito de estufa». Poder-se-á também imaginar injectar partículas muito pequenas ou aerossóis na alta atmosfera para que elas arrefecessem parcialmente os raios solares. Tudo isso faria, teoricamente, baixar as temperaturas médias…No entanto, a realidade é bem mais complicada.P – A tentação de modificar intencionalmente o clima é uma novidade?Edouard Bard – Não. Isso chama-se «geoengenharia». Mas este campo de pesquisa manteve-se tabu durante muito tempo na comunidade científica por uma razão simples: difundir a ideia junto dos políticos, dos empresários e do público de que bastaria pôr em funcionamento certos dispositivos para servir de remédio ao aquecimento global é perigoso. Isso levaria à falsa ideia que se poderia injectar sem cessar o carbono na atmosfera terrestre. Ora tais dispositivos de geo-engenharia não devem ser senão um último recurso, em caso de agravamento brutal e imprevisto da situação climática.Porém, certos climatólogos pensam que é chegada a hora de começar a trabalhar sobre uma tal eventualidade. Para avaliar os numerosos riscos e incertezas e sobretudo para não fazer crer que se trata de uma solução milagrosa.P – Qual é a solução de resfriamento mais provável?Edouard Bard – O dispositivo de que mais se fala há décadas foi o que foi adoptado por Paul Crutzen, prémio Nobel de química. Com a ajuda de balões, por exemplo, procurar-se-ia injectar dióxido de enxofre na estratosfera que se transformaria de seguida em minúsculas partículas de sulfato. Estes aerossóis reflectiriam então parcialmente os raios solares durante anos.As consequências de um tal efeito-écran puderam ser estudadas a seguir às grandes erupções vulcânicas – como as do El chichon em 1982 e do monte Pinatubo em 1991. Estes vulcões projectaram dióxido de enxofre que se transformaram numa camada de aerossóis. No Pinatubo o efeito foi um abaixamento médio das temperaturas do solo de cerca de 0,5 ºC durante dois anos. Mas atenção: estes valores não mostram a complexidade dos fenómenos observados.
P – Quais são os riscos?Edouard Bard – No Verão seguinte à erupção do Pinatubo um arrefecimento foi observado em quase todas as regiões do mundo. No Inverno seguinte, arrefecimentos acentuados foram registados no mar do Labrador, no Médio Oriente e no Norte de África, ao passo, que, paradoxalmente, se observou um aquecimento na Europa do Norte…Imagine-se a intensa actividade diplomática que se tornaria necessária antes da concretização de tais soluções.Pergunta – Podem-se explicar os efeitos colaterais não controlados?Edouard Bard – A injecção de aerossóis perturbaria um fenómeno chamado de oscilação árctico que provocaria aquecimentos locais no Inverno em certas regiões, e o esfriamento se concentraria noutras. Assim no Inverno seguinte à erupção do Pinatubo a descida de temperatura das águas do mas Vermelho levou à mistura de águas de superfície e à subida de elementos nutritivos. O resultado foi uma proliferação de algas que asfixiaram os corais. Efeitos no crescimento de plantas terrestres foram também detectados à escala mundial.Com todos esses dispositivos de geo-engenharia não é só a atmosfera que fica em jogo, mas o sistema climático no seu conjunto, isto é, corre-se o risco de se dar um efeito de dominó de grande complexidade. Prever e avaliar os efeitos colaterais à escala mundial exige, antes de tudo, um trabalho científico considerável que envolva climatólogos, oceanógrafos, geólogos, astrónomos, biólogos, agrónomos, etc.Além disso, caso esta solução venha a ser encarada por ser menos arriscada, mesmo assim torna-se difícil avaliar as consequências em cadeia de uma manipulação em grande escala.Imaginemos o cenário: o carbono absorvido é transferido para o fundo do oceano. Uma parte desta matéria orgânica vai logicamente oxidar, consumindo o oxigénio dissolvido nas águas do mar. Podem então formar-se zonas anoxicas, isto é, desprovidas de oxigénio, em certas regiões do oceano. Bactérias capazes de degradar os nitratos desenvolver-se-iam o que produziria um gás, o protozido de azoto (N20) que se escaparia para a atmosfera. Tal teria consequências desastrosas para o ambiente uma vez que se trata de um gás com efeito de estufa muito mais poderoso que o CO2P – Apesar de reticentes, muitos climatólogos mostram-se derrotistas e pensam que tais procedimentos irão ser adoptados. Qual é a sua opinião?Edouard Bard – Temos que ver como funciona a diplomacia climática. Numerosos colegas meus mostram-se pessimistas sobre a eficácia das medidas que visam a redução das emissões. Mesmo na Europa, a vontade de desenvolver, rapidamente e em grande escala, alternativas ao petróleo e ao carvão, deixa muito a desejar. Os empresários e os políticos têm as cartas na mão. Se os países do Norte não mudarem de atitude acerca das mudanças climáticas, eu temo bem que não haverá grandes hipóteses de escaparmos, daqui a algumas décadas, à adopção de medidas extremas.

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